Oi gente…

Pessoal da divulgação se precisarem de ajuda quanto ao que foi comentado ontem na sala, estou a disposição tá bom… bjs

Tati Martins

“De todas as coisas humanas, a única que tem o fim em si mesma é a arte.” MACHADO DE ASSIS

 

 

Publicado em:  on Maio 17, 2008 at 12:59 pm Deixe um comentário

“A vida é boa” (teria ele balbuciado”in extremis”)

Ao meu lado num banco da Praça Mauá, antigo Cais Pharoux, Rio de Janeiro, senta-se um velho de traje escuro, pincenê, cabelo e barba grisalhos. Senta-se de leve, vagaroso, a balbuciar um pedido de licença. Maneiras severas, olhos encovados no rosto trigueiro.

— Cansado? — pergunto só para puxar conversa.

— Tudo cansa, até a solidão — ele me sopra lá do seu canto.

— Veio de longe, por acaso?

— Nem tanto. Do Cosme Velho. Moro lá, na rua do mesmo nome, número 18.

— Sozinho, como deu a entender?

— Sozinho desde o dia 20 de outubro de 1904. Ficaram-me os olhos malferidos, e a memória cheia de pensamentos idos e vividos.

— Perdão, mas o senhor não tem filhos?

— É verdade. Não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

— Mas evitou-os por intenção ou acaso?

O velho inclina a cabeça e medita um pouco.

— Creio que por acaso. Ou por força da natureza, que tudo pode e tudo transforma. Não vá pensar que Carolina e eu recorremos ao remédio que previne a concepção para sempre, e de que ouço falar na rua do Ouvidor.

O velho suspira e saca do bolso, com esforço, um lenço branco.

— Está se sentindo bem?

— Sinto a consciência, caro senhor. A consciência é o mais cru dos chicotes… O povo precisa fazer anualmente o seu exame de consciência.

— Pelo menos, de quatro em quatro anos, no dia das eleições — eu arrisco de novo.

— Concordo. Sou pela discórdia. Concórdia e pântano é a mesma fonte de miasmas e de mortes.

— Agora mesmo, essa fome no Nordeste… — eu insinuo, desdobrando o jornal.

— Não nego as belezas do jejum, mas o céu fica tão longe, que um homem fraco pode cair na estrada, se não tiver alguma coisa no estômago.

O ancião curva-se para limpar a boca. Deve ter uns oitenta, penso.

— O jornal diz aqui que o povo está enviando comida para os flagelados.

— A comida não me preocupa. Virá de Boston ou de Nova Iorque um processo para que a gente se nutra com a simples respiração do ar.

— De qualquer modo o Governo simula ação, pressionado pela opinião pública.

— Suporta-se com paciência a cólica do próximo.

— Mas os saques? O que o senhor pensa dos saques aos supermercados?

— Não é a ocasião que faz o ladrão; a ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito…

— Entendo. O senhor vota em que partido?

— Nenhum. Não me irrito, portanto, se me pagam mal um benefício. Antes cair das nuvens que de um terceiro andar.

— Já sei: o senhor, como muitos brasileiros, perdeu a fé.

— Não é bem assim. Tenho o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia.

Onde eu já teria ouvido ou lido essas palavras? Folheio o jornal.

— Vejo que o senhor não dispensa as folhas — observa o velho. — O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado.

— Se o senhor fosse presidente, o que faria?— pergunto.

— Eu, presidente? Sei que a presidência, aceita-se… Mas falta-me aquela força precisa para trair os amigos. Eu gostaria era de ser um rei sem súditos… Se eu perdesse um pé, não teria o desprazer de ver coxear os meus vassalos. Mas quem pode impedir que o povo queira ser mal governado? É um direito superior e anterior a todas as leis.

— E a corrupção, pensando bem, é uma lei humana…

— Mais ou menos, meu jovem. O conselho de Iago é que se meta dinheiro no bolso. Corrupção escondida vale tanto como a pública; a diferença é que não fede. Se tiver de sujar-se, suje-se gordo!

— No seu entender, o Brasil vai bem ou perde-se?

— O país real, esse é bom; o povo revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco.

Tal comentário traz à baila a questão da dívida externa, que está deixando o país de joelhos. Mas o meu interlocutor, que parece ter resposta engatilhada para tudo, objecta:

— Que é pagar uma dívida? É suprimir, sem necessidade urgente, a prova do crédito que um homem merece. Aumentá-la é fazer crescer a prova.

— O problema é que a dívida legou-nos uma herança trágica…

— Ora, heranças… Há dessas lutas terríveis na alma de um homem. Não, ninguém sabe o que se passa no interior de um sobrinho, tendo de chorar a morte de um tio e receber-lhe a herança. Oh, contraste maldito! Aparentemente tudo se recomporia, desistindo o sobrinho do dinheiro herdado; ah! Mas então seria chorar duas coisas: o tio e o dinheiro.

Meu interlocutor disfarça leve bocejo e comenta, com um vestígio de sorriso irônico, que dormir é um modo interino de morrer. De repente, ele está mais loquaz. Do sono sinônimo de morte pula para o tempo, sinônimo de tédio, e sugere o dilema: matamos o tempo, o tempo nos enterra.

Ficamos a olhar perto, no cais, um grupo de negros a descarregar um caminhão. Sacas pesadas, talvez de sessenta quilos. Café? Comento que aquele trabalho é deveras pesado.

— O trabalho é honesto, mas há outras ocupações pouco menos honestas e muito mais lucrativas — suspira o velho.

Com o lenço, limpa as lentes. Tem ar alheado. A observação sobre o trabalho o faz pensar em tema assemelhado.

— A honestidade — balbucia. — Ah, a honestidade… Se achares três mil-réis, leva-os à polícia; se achares três contos, leva-os a um banco.

—É tudo uma questão de consciência — eu arrisco.— E a boa consciência, muitas vezes, está com os vencidos da vida.

— Nada mais exato, mancebo. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.

Pausa. A cabeça do ancião de pincenê pende para o peito. Mas os olhos me parecem vivos, deles se desprende uma luz quase crua. De repente ele volta a falar, como se reatasse um monólogo.

— Ah, se eu houvesse de definir a alma humana…

— Como a definiria? Pode dizer-me?

— Eu diria, meu jovem, que ela é uma casa de pensão. Cada quarto abriga um vício ou uma virtude. Os bons são aqueles em quem os vícios dormem sempre e as virtudes velam, e os maus…

Meu interlocutor deixa a frase no ar, dobra o corpo e massageia um pé.

— São os calos, mestre?

— São as botas. Botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar.

Aperta o pincenê nos olhos míopes, olha-me com firmeza e conclama:

— Mortifica os pés, desgraçado; desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro.

Passa por nós um vendedor de loterias e tenta impingir-me o sweepstake. Recuso. O velho ao lado acode:

— Compre de vez em quando. A loteria é mulher, pode acabar cedendo um dia.

— Não gosto muito de jogos…

— Pois eu adoro o xadrez. Jogo delicioso, por Deus!… a rainha come o peão, o peão come o bispo, o bispo come o cavalo, o cavalo come a rainha, e todos comem a todos. Graciosa anarquia…

O velho faz um movimento para erguer-se. Digo-lhe que é cedo, que a prosa está boa.

— Não é que seja tarde. É que vai chover. Tive um personagem que, quando o relógio parava, dava-lhe corda, para que ele não parasse de bater nunca, e ele pudesse contar todos os seus instantes perdidos.

— Tem certeza que vem chuva?

— Com pingos d’água é que se alagam as ruas. Ah, uma lágrima! Quem nos dera uma lágrima única! Mas o mundo cresceu do dilúvio para cá, a tal ponto que uma lágrima apenas chegaria a alagar Sergipe ou Bélgica.

Pausa. Por nós passa um bêbado e dá uma viva à Sereníssima República. Olho a praça, a ver se começa a inundar-se, e nesse átimo o velho mestre desaparece. Desvaneceu-se qual ectoplasma. Será que estive a ouvir o bruxo Machado de Assis? Nesse caso, respondo pelas transcrições, que o meu fino leitor identificará. Se não identificar, dou-lhe um piparote, e adeus.

Alexandre N. Milev

Publicado em:  on Maio 12, 2008 at 11:41 pm Deixe um comentário
Tags: ,

Vocês sabiam dessa?

Machado de Assis

O escritor Machado de Assis foi servidor da Imprensa Nacional e é Patrono do Órgão.

1867- Machado de Assis foi servidor da Imprensa Nacional e  ocupou até 1874 o cargo de assessor (ajudante) do diretor do “Diário Oficial”.

 

1856 a 1858 – O escritor Joaquim Maria Machado de Assis trabalha na Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo. O diretor-geral era o escritor Manuel Antônio de Almeida.

 

1997 – Decreto de 13 de janeiro, do Presidente da República, que confere ao escritor Joaquim Maria Machado de Assis o título de Patrono da Imprensa Nacional.

 

2008 – Ano Machado de AssisNo dia 18/09/2007, foi publicado no Diário Oficial da União, a Lei nº 11.522, que institui 2008 como o Ano Nacional Machado de Assis, assinada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil.

 

…………………………………

Aprendiz de tipógrafo
Machado de Assis foi aprendiz de tipógrafo. O prelo em que trabalhou faz parte do acervo do Museu da Imprensa, da Imprensa Nacional, no Rio de Janeiro.

Dois testamentos
Machado de Assis fez dois testamentos. Um em 30 de junho de 1898, instituindo herdeira única e universal de seus bens sua mulher, Carolina Augusta de Novais Machado de Assis. Como esta morreu antes dele, em 1904, o escritor fez um outro em 31 de maio de 1906, instituindo sua herdeira única “a menina Laura” (já então com 15 anos de idade), filha de sua sobrinha.

Cor “branca”
Preservada no Arquivo Nacional, a certidão de óbito o traz registrado como de “cor branca”, mesmo sendo sua mulatice ou mestiçagem já conhecida.

Nome errado
No inventário, o seu nome vem mencionado algumas vezes erroneamente como José (sic) Maria Machado de Assis, talvez pelo fato de ele escrever e assinar abreviadamente J. M. Machado de Assis.

 

“Não tive filhos não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

[Frase final de Memórias Póstumas de Brás Cubas,1881]:

Fernanda Colman

Publicado em:  on at 12:14 am Deixe um comentário

Olá pessoal…

Navegando na net encontrei o site http://www.machadodeassis.org.br

 

Este site é do Arquivo do Centro de Memória da Academia Brasileira de Letras, que possui cerca de 6 mil documentos sobre Machado de Assis. São originais literários, manuscritos, autógrafos, correspondência pessoal, familiar e institucional, além de recortes de periódicos com notícias e críticas. As informações provenientes deste acervo, juntamente com diversos objetos do escritor e parte do mobiliário da casa onde viveu, na Rua Cosme Velho, 18.

Sds

Andréa Alves

 

Publicado em:  on Maio 11, 2008 at 7:25 pm Deixe um comentário
Tags:

Machado

Não tenho costumes de ler literaturas, mas com o desenvolver desse trabalho, estou começando a rever meus conceitos. Espero que outras pessoas também possam desenvolver interesse.

Att: William

Publicado em:  on Abril 28, 2008 at 12:42 pm Comentários (1)